18 abril 2011

Saco cheio (Estudo de Caso)

Antes tarde do que nunca, o mês de abril está quase acabando e nada de uma nova postagem mas andei um pouco ocupado com o trabalho, lendo cada caso de cada pessoa que me enviou sua estória por email - queria agradecer a todos que me enviaram email contando sua estória pela confiança depositada em mim- e também correndo atrás de ajudar os indefesos coelhos que no mês de páscoa eles sofrem muito pois para promover a páscoa muitas pessoas esquecem que coelhos de verdade sentem dor de verdade, frio de verdade, esquecem até de que eles são de verdade.
Mas voltei para postar mais um caso que um amigo, colega de TOC, me contou e permitiu que eu postasse aqui. Vou chamá-lo de Fernando (nome fictício).
O Fernando me contou que também começou seus rituais quando era criança, como acontece com a maioria das pessoas que tem TOC. Além do TOC ele também tinha a síndrome de Tourette - comum também de aparecer na infância e concomitantemente com o TOC -  ficava fazendo sons com a boca, alguns sons eram baixos e outros mais altos e apesar das pessoas olharem quando ele vocalizava algum som mais alto isso não era o que mais lhe incomodava. Seus rituais tomavam boa parte de seu tempo e muitas vezes o colocava em situações constrangedoras. Uma de suas piores manias era a de pegar quase tudo o que ele via no chão e guardar na cueca. Pegava papel de bala durante o "recreio" na escola que estavam no chão e disfarçadamente os colocava na cueca. Folhas secas e pequenos gravetos também iam para a sua cueca. Enquanto voltava a pé para casa tinha o costume de pegar pedaços de papel, folhas, tudo o que era pequeno e guardar na cueca. Claro que isso o incomodava, tinha medo me pegar alguma alergia ou dermatite mas a compulsão era maior do que seus medos. Era comum durante a aula ele "ajeitar" sua coleção de coisas e frequentemente alguns pedacinhos caim da cueca de volta no chão. Na hora de fazer xixi ele tinha que abaixar com cuidado a cueca para não deixar tudo cair no buraco da privada. Claro que não demoraria muito tempo com essa compulsão sem que algo desse errado e o colocasse em uma situação constrangedora. Um dia ele estava no colégio e sua tia que trabalhava no mesmo colégio resolveu levá-lo, junto com outros meninos, até o posto de saúde para serem vacinados contra sarampo pois estava tendo uma campanha. Chegando lá ele descobriu que a vacina era aplicada nas nádegas e não no braço como na maioria das pessoas e gelou ao imaginar a idéia de ter que abaixar a cueca para ser vacinado. Fernando me contou que ele morre de medo de agulha - até hoje - mas que naquela hora o que ele menos pensava era na agulha. Sua mente começou a trabalhar para tentar descobrir uma maneira de não ser descoberto com todas aquelas folhas e papeis em sua cueca ou que desculpa daria para ter tudo aquilo armazenado. Teve a idéia de ir até o banheiro e jogar tudo no lixo mas antes mesmo de dar o 1o passo foi chamado para a sala de vacinação. Ele entrou suando, a enfermeira percebeu seu mal estar e disse que não precisava ter medo da injeção pois tudo acabaria muito rápido. Como ele estava congelado de medo a enfermeira rapidamente abaixou apenas 2 dedos de sua calça, aplicou a injeção e pronto! Fernando estava livre da injeção e do vexame pois não teve que abaixar as calças. Além desse episódio, Fernando passou por outro apuro quando fazia aula de kung-fu. Ele sempre ia a pé até a aula e no caminho foi colecionando folhas e papeis. Chegando na academia o professor pediu que eles corressem em círculos para aquecer e conforme Fernando começou a correr, os pedacinhos de folhas e papeis começaram a escorregar pela calça do agasalho e cair no chão. Ele até tentou recolher alguns para eram muitos e o pessoal começou a perceber que o chão estava ficando sujo. O professor recolheu alguns papeis e perguntou se alguém havia estado em algum baile de carnaval pois por mais que ele recolhesse os "confetes" continuavam a aparecer. Fernando se fez de desentendido, pediu ao professor para ir ao banheiro e jogou toda sua coleção no lixo. Ao voltar o professor lhe disse que precisava falar com ele depois da aula. Fernando, como todo portador de TOC, ficou durante toda a aula imaginando se o que o professor queria falar era algo relacionado aos papeis. No final da aula o professor se ocupou com outras coisas e Fernando precisou ir. O professor nunca mais tocou no assunto e Fernando muito menos.
Fernando contou que seu pai é um homem a moda antiga e assim como os antigos "curavam" os canhotos amarrando sua mão esquerda para que escrevesse somente com a direita, o pai do Fernando tentava curar seu TOC batendo nele cada vez que ele chegava com a cueca cheia de papeis e folhas. Todo dia quando Fernando chegava em casa seu pai fazia ele descer as calças e se encontrasse folhas ou papeis ele apanhava. No começo Fernando me disse que as vezes esquecia de esvaziar a cueca e apanhava mas com o tempo foi se habituando a esvaziar a cueca antes de chegar em casa. Era melhor correr o risco de passar vergonha esvaziando a cueca na rua do que apanhar em casa.
Identifiquei-me com a estória dele pois também já cheguei a apanhar do meu pai por causa do TOC.
É, o TOC nos deixa de saco cheio, as vezes literalmente

25 março 2011

Quando o TOC começou

Não sei se todos leram mas na página Quando tudo começou eu relato como meu TOC começou. Não quando eu descobri que tinha TOC mas sim quando notei em mim meu 1o sintoma de TOC. Sei que não é fácil muitas vezes lembrarmos quando foi que nossas esquisitiçes começaram mas eu lembro nitidamente de poucas imagens de quando eu estava no pré e em nenhuma delas eu estava fazendo algum tipo de ritual. Já meu 1o sintoma, quando estava na 1a série, nunca me saiu da cabeça e desde esse dia em diante eu  me lembro que sempre minha vida foi marcada por pensamentos, medos e rituais.
Eu também já disse em algum post que nunca conheci pessoalmente outra pessoa que tivesse TOC, na verdade, antes de criar esse blog eu nunca havia conhecido, nem virtualmente, outra pessoa com TOC. Depois do blog continuo sem conhecer pessoalmente outro portador de TOC mas virtualmente já conheço várias pessoas e todas elas são amáveis e inteligentes como eu rs. Como é bom conhecer pessoas parecidas conosco - não somente em relação aos adjetivos "amável" e "inteligente" - mas pessoas que compartilham do mesmo problema, das mesmas dúvidas, do mesmo sofrimento e todos prisioneiros do seu próprio cérebro.
Todo mundo gosta de ouvir estórias parecidas com as suas e saber que não está sozinho, que não é nenhum alienígena em meio aos terráqueos. Se não fosse assim não existiria o grupo dos AA, ou então o grupo dos Narcóticos Anônimos então porque não criar o grupo virtual dos POTA - Portadores de TOC anônimos?
Gostaria de que, cada um que lê esse blog ou segue esse blog, contasse sua estória de como seu TOC começou, deixando-a nos comentários. Pode ser de forma anônima como o nome do grupo sugere, pode ser usando um pseudônimo ou então com seu próprio nome. O importante é tentar lembrar quando seu TOC começou afinal para se chegar à cura no final temos que saber como foi o início, talvez a resposta esteja onde tudo começou.

Podem ter certeza que eu lerei todas as estórias aqui postada e com certeza me será de grande valia assim como também será de grande valia para outras pessoas que por aqui passarem e lerem.
Grato,
Miguelito

21 março 2011

A viagem de trem inesquecível (Estudo de caso)

Já falei muito de mim e dos meus rituais e agora vou contar a estória de uma outra pessoa. Ela me contou um dos seus piores rituais e me autorizou publicar aqui. Vamos chamá-la de Vanessa (nome fictício).
Vanessa começou seus rituais ainda criança mas não se lembra exatamente quando começou. Sabe que tinha pensamentos estranhos e que tinha que realizar certos rituais para que esses pensamentos à deixassem um pouco mais sossegada. Não eram vozes que mandavam ela fazer coisas que ela não queria, eram pensamentos mesmo, oriundos de sua própria mente e que, apesar de desafiar o lógico, faziam com que ela sentisse a necessidade de tocar em tudo o que via para que esses pensamentos não se tornassem realidade.
Ela começou tocando nos postes enquanto caminhava até a escola. Não eram todos, somente quando vinha um pensamento que sua mãe morreria ou poderia ter câncer é que ela tocava no 1o poste que via pelo caminho. Se o poste estava do outro lado da rua ela se via obrigada a atravessar a rua para tocar nesse poste. Quando ela tentava resistir, uma grande aflição atordoava sua mente. O ritmo do coração acelerava e junto dele os pensamentos de morte aceleravam também. Era como se ao se recusar a tocar no poste ela tivesse cortado o fio errado da bomba relógio que estava presa ao corpo de sua mãe e a contagem regressiva tivesse acelerado. Mais que depressa ela voltava para tocar naquele poste e a contagem regressiva parava.
Com o tempo ela foi tocando em outros objetos também além dos postes. Tocava no paralelepípedo da rua, voltava o caminho só para tocar na lombada que ela havia acabado de passar, tocava nas folhas e flores das árvores. Esse ritual também era realizado dentro de casa e ela sentia necessidade de tocar na vasilha com a comida do gato. Se fosse hoje Vanessa não sofreria tanto com a ração para gatos mas naquela época sua mãe costumava cozinhar sardinha e misturar ao pão para dar aos gatos e ela mergulhava seu dedo naquela mistura húmida e morna que os gatos comiam até tocar o fundo da tigela. De tanto fazer isso seus dedos ficavam com um aroma que atraia vários gatinhos (literalmente). Nas épocas de maior ansiedade ela começou a tocar na água do vaso sanitário. Procurava encostar o mínimo possível na água mas sentia a necessidade de pelo menos molhar a pontinha da unha na água.
Eu diria que isso é um paradoxo pois existe a obsessão com limpeza onde há uma preocupação excessiva com sujeira, germes ou contaminação e a pessoa tem compulsão por lavar as mãos ou não tocar em algo que acha que está contaminado. No caso de Vanessa ela lavava sim muito as mãos mas era por causa da compulsão que a obrigava a tocar em coisas sujas e não por medo de contaminação.
Uma vez quando ela voltava com sua mãe e seu irmão de trem para casa ela sentou na janela e viu a janela suja de vômito e sentiu uma necessidade enorme em tocar naquele vômito. Seu corpo lutava contra sua mente mas a proximidade com o vômito fazia com que ela, apesar se sentir enjoo, se sentisse mais tentada a tocá-lo. Após uma luta interior enorme ela, com muito esforço, levantou a mão e tocou bem de leve com a ponta de sua unha naquele vômito seco e desconhecido e tirou a mão rapidamente. Mas o TOC é astuto e maquiavélico e quanto mais corda vc der a ele maior será a forca que ele preparar para vc e antes  mesmo que ela pudesse respirar aliviada outro pensamento invadiu sua mente para que ela tocasse agora com a ponta de sua lingua.
Ela balançou a cabeça e torceu o nariz num gesto de nojo e pensou: isso eu não posso fazer. Mas e se alguém morrer por causa disso? E se EU morrer por tocar nesse vômito?
O tempo foi passando, sua luta foi aumentando até que finalmente sua estação chegou e sua mãe a puxou para descer do trem. Nesse ponto qualquer um sentiria-se aliviado por descer do trem sem tocar o vômito com sua lingua mas quem tem TOC não é qualquer um e ao invés do alívio Vanessa sentiu uma enorme ansiedade e sentimento de culpa. O trem fechou as portas e seguiu e Vanessa não conseguia andar, ela precisava de alguma forma anular o efeito daqueles pensamentos. Milhões de cosias lhe vinham a cabeça e ela foi seguindo sua mãe e seu irmão meio aos rituais mentais e compulsões que ela deixava pelo caminho.
Sua ansiedade foi passando..... seu coração foi voltando ao batimento normal e Vanessa descobriu que ninguém morre por uma crise de ansiedade, por mais que parece o contrário, e que graças a Deus sua mãe e seu irmão estão vivos até hoje :)
Essa estória me foi contata por uma amiga que tem TOC e eu, além de trocar seu nome, contei à minha maneira porém mantendo a veracidade. Esse episódio não foi o suficiente para que Vanessa eliminasse suas compulsões mas com certeza se alguém, nessa época a tivesse incentivado a lutar mais vezes contra seu TOC ela teria vencido essa ansiedade inicial que se tem quando não se consegue realizar um ritual e talvez estaria curada. Ela me disse que isso a ajudou, pelo menos, a lutar contra esses rituais bizarros e a não realizá-los. Mas porque lutar somente contra os bizarros como esse? Porque não lutar contra todos os rituais?
Essa é uma pergunta que não tem resposta certa, somente cada portador de TOC é capaz de dar essa resposta a si mesmo.

09 março 2011

Altos e baixos

Caros leitores, sei que fiquei muito tempo sem escrever, fiquei um mes inteirinho sem escrever mas é que meu trabalho estava na correria pois precisavamos entregar algo antes do carnaval e conseguimos :). Agora que o ritmo voltou ao normal gostaria de escrever 4x por mes ou no mínimo 3x por mes. Acho que a minha criatividade também estava baixa e não sabia sobre o que escrever. É interessante pois os portadores de TOC geralmente são criativos, além de inteligentes então não sei se é bom ou ruim essa falta de criatividade, não se indica que o TOC  também está sumindo junto com a falta de criatividade ou não. O pior de tudo é se junto com a criatividade e com o TOC a inteligencia se for também rs.
Mas o que eu queria dizer mesmo é que meu estado de espírito, meu humor, meu TOC, quase tudo oscila muito em minha vida. Fiz até um gráfico para tentar expressar mais ou menos como seria meu humor com o passar do tempo. Nâo classifiquei se o tempo medido é em dias, horas ou minutos pq iss otb varia. Tem épocas em que esse gráfico pode ser medido em meses....outras épocas posso dizer que essa variação se dá em semanas mas as vezes a únidade de medida do tempo é em dias mesmo. Meu humor varia de um dia para o outro dependendo de como foi o dia no trabalho, de como dormi a noite, do que tenho que fazer durante a semana, etc.
Se as mulheres reclamam que seu humor variam no período da TPM que dirá aquelas que além da TPM também tem TOC?. Nós homens que temos TOC entendemos um pouquinho desse universo feminino no período da TPM, como é triste algo dentro da gente e fora do nosso controle ditar como estará nosso estado de espírito nos próximos minutos.
Essa ansiedade e essa irritabilidade nos deixam sensíveis a ponto de estourar com apenas uma palavra negativa. E quando nos atrapalham no meio dos rituais ou compulsões? O ódio de ter que recomeçar os rituais nos fazem ferver e nos cegam e acabamos sendo grosso e estúpido, muitas vezes querendo que os outros também entrem em nossos rituais e os sigam.
Mas ainda bem que são altos e baixos e não somente baixos. Quando estamos no fundo do vale, na parte mais baixa do gráfico de Estado de Espírito devemos lembrar que isso significa que estamos prestes a subir no gráfico, que não tem como piorar nosso humor e que nesse altos e baixos, quanto mais baixo estamos mais próximos da subida estamos também. Quando atingimos o fundo é porque vamos começar a subida até atingir o topo e até lá é só alegria :)
Temos que aproveitar esses momentos de "altos" para produzir, fazer tudo o que não conseguimos fazer quando estávamos nos "baixos" e quando estamos nos "baixos" devemos nos concentrar na subida, ter como meta o topo do humor.
Quero contar algumas estórias minhas relacionadas aos rituais e também de outras pessoas portadoras de TOC (sem citar nomes) para que aqueles que tem TOC possam se identificar mais e aqueles que não tem possam entender um pouco mais do universo do TOC.
Nâo me orgulho do meu TOC mas me aceito do jeito que sou.

28 janeiro 2011

Bom dia para quem?

As vezes eu acordo assim: cara de sono, mau humor, com o TOC quase nível 5 na escala Richter (ou atacado como costumo dizer) e ainda tenho que enfrentar um dia inteiro pela frente. Tento me animar me dizendo que é só mais um dia e ele passa rápido mas lembro que finalizada a batalha de hoje ainda terei a batalha de amanhã.
Geralmente sempre sou bem humorado mas o TOC é umas das poucas coisas que conseguem tirar meu bom humor. Eu levanto e começo a fazer meus rituais, ir e voltar do banheiro, tento descer as escadas sem pensar em algo ruim etc, então enquanto estou me trocando, me arrumando ou descendo a escada estou tanbém fazendo meus rituais e tentando não pensar nada ruim e com isso acabo fazendo muitas coisas sem pensar. É inevitável que eu não me esqueça de algo afinal já é dificil não esquecer nada tentando pensar em tudo o que precisa fazer ou pegar, imagina fazendo tudo isso tentando não pensar em nada? Vou descendo as escadas, me atropelando nos degraus, lavando as mãos no lavado e subindo novamente e quando finalmente consigo descer as escadas lembro que esqueci algo que preciso lá em cima :(. Volto para pegar e começa tudo novamente. Finalmente consegui descer as escadas de novo e agora tento sair, fechar a porta correndo e entrar rápido no carro antes que sinta que tenha que voltar novamente para lavar as mãos no lavabo. Tento, enquanto entro no carro, já ir ligando o carro, colocar o cinto de segurança e abrir o portão automático mas se torna impossivel fazer 3 coisas ao mesmo tempo que dirá misturar tudo isso aos rituais e pensamentos. Para ajudar a chave do carro cai enquanto eu tentava entrar no carro e tenho que sair novamente do carro, abrir a porta e voltar para lavar as mãos. O TOC sempre sacaneia a gente então depois de ir e voltar do lavado tentando sair e fechar a porta quando finalmente consigo sair minha blusa enrosca na porta e sou obrigado a abrir a porta para soltá-la. Ai que ódio, vontade de ir somente com metade da camisa para o trabalho mas abro a porta novamente e isso implica em começar novamente o lava-mão, tenta-fechar-a-porta, lava-mão. Conseguido entrar no carro e ligá-lo enquanto coloco o cinto e abro o portão já vou andando com o carro antes mesmo do portão abrir por completo. As vezes me pego agachando dentro do carro achando que desse modo conseguirei passar por debaixo do portão antes mesmo que ele abra, tamanha a vontade de sair correndo. Nessas alturas já estou suando bicas, pricipalmente nesse calor e meu condicionamento está melhor do que se eu tivesse feio 40 minutos de esteira mas vamos em frente pois ainda mal começou o dia.
Vou seguindo para o trabalho meio aos pensamentos e rituais mentais, graças a Deus não tenho outros rituais enquanto dirijo. Quando chego no trabalho abro e fecho várias vezes a porta do carro, não sei mas acho que tenho sérios problemas com portas, se todas fossem automáticas que bom que seria a minha vida. Já cansado de fechar a porta e ir e voltar até o carro me deparo com a escadaria de 80 degraus!!!! para chegar do estacionamento até o prédio. Subo os degraus meio rapidinho (meu condicionamento físico não permite que eu vá mais rápido) e dou glórias a Deus que com essa escada eu não tenho o mesmo problema que tenho com a escada de casa (quero comprar uma casa plana, sobrados me torturam muito). Cheguei ao prédio e trabalho no 2o e último andar claro e para isso são mais 40 degraus até o 2o andar - descobri porque odeio escadas - mas antes disso tem a catraca que vc precisa passar o crachá antes de entrar. Por falar em crachá, cadê o meu? O TOC me sacaneou novamente e esqueci ele no carro, abri e fechei várias vezes a porta do carro mas em nenhuma delas lembrei de pegar o crachá pois estava preocupado em não pensar em algo ruim :(. Aposto que passou pela cabeça de voces um filminho voltando tudo novamente, abrindo a porta do carro e fazendo todos os rituais novamente. Pela minha também e claro que a decisão foi: Nem pensar!
A catraca é eletrônica e não precisa do crachá para liberá-la, somente é necessário para que ela não apite e não tire uma foto sua entrando sem ter passado o crachá. Então tudo bem, passo sem crachá, ela apita e antes de tirar a foto dou um sorrisinho :) - para, pelo menos, sair bem na foto.
Chego a minha mesa cansado, sinto como se tivesse vindo rolando, despencando morro abaixo, tropeçando, sendo jogado de um lado para outro pelos carros da avenida até chegar ao trabalho e vejo no MSN a mensagem de BOM DIA feita com aqueles emoticons floridos e piscantes e penso: Bom dia para quem?

18 janeiro 2011

Livre para ser obsessivo-compulsivo

Descobri que eu não me importo de ter TOC e desisti de lutar para me curar 100% e ser uma pessoa normal pois pessoas normais não existem. É bem válido aquele ditado que diz que "de médico e louco todo mundo tem um pouco". Nos 5 anos de faculdade eu tive algumas aulas de psicologia e logo no início precebi que todo comportamento humano podia ser enquadrado em uma patologia e afirmei à professora que dessa maneira ninguém seria normal e ela disse que é verdade isso mas se a pessoa vive bem na sua "anormalidade" não há porque procurar ajuda e mudar. Somente devemos procurar ajuda para mudar se nossas patologias nos afetam ou afetam as demais pessoas.
Eu convivo com o TOC a muitos anos, ele já faz parte da minha vida e não consigo me lembrar de como era a minha vida antes do TOC e também não consigo imaginar como seria ela sem o TOC. Acho que sofro da Síndrome de Estocolmo pois o TOC sequestrou a minha mente e me mantém cativo e essa relação de amor e ódio se arrasta a tanto tempo que não consigo vislumbrar minha vida sem o TOC.
Se eu pudesse ao menos ter mais liberdade com o TOC, se eu pudesse pular as rachaduras no chão sem me esconder, disfarçar ou dar satisfações, se eu pudesse voltar quantas vezes fosse necessárias para conferir, se eu pudesse abrir e fechar a porta do carro quantas vezes eu precisasse sem olhares estranhos já seria um alívio imenso. Se eu pudesse realizar meus rituais quando eu quisesse ou quando tivesse tempo, se fosse possível dar uma pausa nos rituais e pensamentos para realizar tarefas importantes e urgente e depois recomeçar de onde parei nem me importaria muito com o TOC.
Já cheguei num nível satisfatório em relação ao meu TOC em que, apesar de eu ainda ter TOC ele não me atrapalhava. Tinha dúvidas se havia fechado ou não a porta como a maioria das pessoas mas puxando pela memória conseguia lembrar de um fato que me certificava que havia fechado a porta e não voltava para verificar. Gostava das coisas organizadas mas não necessáriamente alinhadas ou simétricas. Apesar de ainda ter TOC era algo que não me atrapalhava e permitia levar uma vida "normal". Depois de um tempo mesmo tomando remédios os pensamentos e rituais foram se tornando mais pertinentes, nada comparado com antes quando eu não me tratava mas o suficiente para o TOC voltar a me incomodar.
Hoje, após muitos anos buscando a cura, busco apenas voltar àquele estágio em que eu tinha pensamentos e rituais mas era livre para ser obsessivo-compulsivo, sem me importar com os rituais, sem me importar com o olhar recriminatório e curioso das pessoas. Pois buscar a cura de forma "obsessiva", querer o perfeccionismo é mais uma caracteristica dos portadores de TOC e para me livrar dele preciso me livrar dessa caracteristica :).
Não me importo em ser diferente igual a todo mundo, eu quero é ser livre.

01 janeiro 2011

Feliz Ano Novo


Queria desejar Feliz Ano Novo a todos que acompanharam meu blog em 2010 e àqueles que irão acompanhá-lo em 2011 :)
Nada melhor do que começar o ano com uma música do Casting Crowns que foi indicação de minha amiga Amanda. Segundo ela "essa música expressa de forma perfeita" o sentimento em relação ao TOC e eu concordo com ela plenamente.
Segue a tradução da música e o link para ela no youtube:

Me Liberte

Nunca foi sempre assim
Eu lembro de dias brilhantes
Antes da escuridão que veio
Roubou minha mente
Amarrou minha alma com correntes

Agora eu vivo entre os mortos
Lutando contra as vozes em minha cabeça
Esperando que alguém me ouça chorar à noite
E me carregue pra longe

Me liberte das correntes que me seguram
Tem alguém lá fora me ouvindo?
Me liberte

A manhã chega, um outro dia
Que me encontro chorando na chuva
Sozinho com meus demônios estou
Quem é este homem que vem na minha direção?
Os escuros gritam
Eles gritam Seu nome
É Ele o quem dizem que vai libertar os cativos?
Jesus, salve me!

E quando o homem Deus passou por mim
Ele olhou direto através de meus olhos
E a escuridão não pôde se esconder

Você quer ser livre?
Levante suas correntes
Eu tenho a chave
Todo poder nos Céus e na Terra pertencem a mim

Você está livre
Você está livre
Você está livre

30 dezembro 2010

Manias

Manias ou rituais, como queiram chamar, são as compulsões que temos na tentativa de diminuir a ansiedade causada pela obsessão. E essa tentativa é bem sucedida por isso tendemos a continuar as ter compulsões como alívio das obsessões. Só não entendo porque minhas manias ou rituais vão mudando com o tempo. Não sei se isso acontece somente comigo ou com outros portadores de TOC também mas meus rituais foram mudando ao longo do tempo. Hoje, meu dia começa e eu vou ao banheiro lavar o rosto, tenho a mania de lavar duas vezes o rosto, colocar 4x água na boca e cuspir e depois lavar mais duas vezes o rosto. Que eu me lembre esse ritual me persegue faz tempo e o faço de forma tão automática que já não me causa mais angústia ao fazê-lo pois é algo que não me toma tempo, é sempre igual. Já depois de lavar o rosto eu preciso me trocar, escolher uma calça e vestí-la, uma camisa, meias e sapatos. O ritual para isso mudou muito com os anos, cada vez tenho uma mania diferente para me trocar. Antes eu tinha que pegar uma calça e se conseguisse pegá-la e não ter nenhum pensamento ruim eu vestia ela. Se no momento em que pegava a calça me viesse um pensamento ruim então eu não podia mais colocar aquela calça naquele dia senão eu achava que algo de ruim ia acontecer com quem eu amo. Aí eu tentava pegar outra calça sem vir um pensamento ruim e assim ia até conseguir. Conforme ia acabando a quantidade de calças disponíveis eu sabia que de alguma maneira teria que vestir uma, nem que fosse a última calça então parece que ao sobrar poucas calças ficava mais fácil. Com o tempo aperfeiçoei esse ritual e ia tocando em várias calças e tendo pensamentos ruins(de forma intencional) para que me sobrassse apenas 1 ou 2 opções aí só me restava vestir a calça que sobrou. Assim como eu aperfeiçoei esse ritual, o TOC também se aperfeiçoou e meu ritual mudou. Agora não bastava mais eu pegar a calça sem vir um pensamento ruim, eu tinha que pegar a calça e vestí-la sem vir nenhum pensamento ruim. Enquanto vc leva apenas 2 segundos para pegar uma calça é fácil não ter pensamentos ruins em 2 segundos mas para vestir uma calça, por mais rápido que vc seja vc vai levar uns 5 segundos e aí sim fica complicado vc tentar afastar os pensamentos ruins por 5 segundos. Agora eu já não podia mais sair tocando em várias calça para sobrarem apenas 1 ou 2, eu precisava de todas as opções de calças disponíveis pois ia descartando uma por uma a medida que tentava vestí-las e no meio do processo me vinha um pensamento ruim e me via obrigado a tirar a calça e escolher outra. Como o tempo esse ritual sofreu "mutações" e hoje o meu ritual para vestir a calça continua sendo ter que vestí-la sem vir um pensamento ruim mas quando eu "acho" que o pensamento ruim está vindo eu tiro correndo a calça e jogo na cama. Aí eu posso ter o pensamento ruim e depois tentar vestir novamente a calça. Bizarro não? Bom, se vc achou bizarro nem continue lendo pois esse foi apenas o 2o ritual do dia, ainda falta eu ralatar mais 317 rituais até o fim do meu dia :).
Vestida a calça eu passo para a camisa que segue o mesmo padrão de ritual. Detalhe, depois que eu vesti a calça e a camisa evito tocá-las com as mãos pois se eu tocar e vier um pensamento ruim tenho que trocar. Então como passar desodorante sem tocar na camisa? Depois de muito sofrer aprendi a passar desodorante antes de vestir a camisa, simples não? :). O ritual para colocar as meias é do mesmo jeito mas não sei porque tenho mais dificuldade nessa tarefa e não vou ter vergonha de confessar que várias vezes peço à minha esposa para vestir as meias em mim. Sim, não posso tocar as meias com as mãos mas não há nenhum problema se elas tocarem qualquer outra parte do meu corpo.
Não tenho mania de simetria, nem de lavagem, nem medo de contaminação, pelo menos não a ponto de realizar rituais do tipo voltar varias vezes para verificar o gás, não tocar em maçanetas para não me contaminar, alinhar os sapatos, etc. Eu lavo sim várias vezes as mãos mas não porque acho que estão sujas mas sim toda vez que tenho um pensamento ruim com quem eu amo. Então quando tocava em uma calça e um pensamento ruim vinha à minha cabeça eu apenas molhava os dedos como se estivesse "lavando" essa ideia da minha cabeça e, depois de "limpo", eu podia pegar outra calça. Eu abro e fecho várias vezes a porta do meu carro mas não porque "acho" que deixei ela aberta e alguém vai roubá-lo ou alguém vai cair do meu carro e se machucar. Faço isso porque quando fechei a porta, veio um pensamento que algo ruim ia acontecer e senti a necessidade de abrir e fechar a porta. É como se refazendo a última ação mas sem o pensamento ruim eu anulasse a 1a ação de fechar a porta quando tive um pensamento que algo de mal iria acontecer.
Basicamente os pensamentos que me veem à cabeça são de que algo de ruim vai acontecer com quem eu amo ou de blasfêmea e se me veem esses pensamentos tenho que lavar os dedos ou refazer a última ação tentando não pensar que algo ruim vai acontecer ou não blasfemar.
Se eu contar todos os rituais durante um dia e como eles sofreram "mutações" com o passar do tempo não vou precisar de um blog para escrever mas sim de uma enciclopédia de A a Z portanto vou apenas citá-los. Depois de me vestir eu tento passar gel no cabelo. Quando coloco um pouco de gel nas mãos e junto dele vem um pensamento ruim não tenho como devolver o gel e só me resta jogá-lo na pia e pegar mais um pouco por isso é necessário muito cuidado ao pegar o gel para não desperdiçar muito. Para descer as escadas eu tento várias vezes, desço até a metade, subo novamente, molho as pontas dos dedos na torneira e tento descer de novo. Colocar leite ou café no copo também é como o gel, se pensei algo ruim preciso jogar e colocar novamente por isso opto por alguém já deixar meu leite pronto (artimanhas para tentar enganar o TOC pois vencê-lo somente com a cura). Abro e fecho várias vezes a porta de casa sem ter uma quantidade de vezes a fechar, é aleatório. Tem dias que demora mais e dias que demora menos. O porque eu não sei e acredito que nuca vou saber pois os rituais não tem nenhuma lógica, o TOC não tem lógica e não somos loucos porque temos a consciencia de que nada disso faz sentido mas mesmo assim continuamos a fazer. Quer algo mais sem lógica que isso?
Mas não se desesperem, já ouvi e li em vários lugares e uma amiga também disse que ouviu de vários psiquiatras que os portadores de TOC são mais inteligentes que a média. Somos esquisitinhos, temos manias? Sim mas somos inteligentes. Se não fossemos inteligentes como iriamos disfarçar nossos rituais para as demais pessoas não perceberem? Eu nunca conheci pessoalmente outro portador de TOC, somente por email ou pelo blog. Alguém que tem TOC já encontrou outro colega de manias?
Essa mesma amiga me disse que assim como escondemos e disfarçamos muito bem nosso TOC das outras pessoas os outros portadores de TOC também disfarçam muito bem.
Não relatei todos os rituais, durante todos esses anos tive muitos rituais, alguns bizarros, outros engraçados, outros constrangedores então se vc acha que seus rituais são muitos piores que esses e tem até vergonha de contar lembre-se que isso que relatei é apenas a ponta do iceberg chamado TOC.
Feliz ano novo para todos.

14 dezembro 2010

Espaço aberto

Não sei se é cíclico mas de vez em quando acordo atacado com meu TOC. Os pensamentos invadem minha mente de uma forma tão agressiva que não consigo espantá-los para longe e a única opção que me sobra é mergulhar nos rituais torcendo para que essa fase passe logo. O que ajuda muito é ler as estórias das outras pessoas, ver casos de melhoras que te dão uma esperança maior e também ler casos piores que o seu para vc não achar que o que vc está passando é o pior pesadelo do que qualquer outro. Tenho recebido bastante emails e várias pessoas tem deixado comentários contando suas estórias, perguntando e trocando experiências. Por isso gostaria de abrir espaço para quem quiser contar sua estória de vida com o TOC, ou contar a estória de alguém próximo ou então apenas desabafar, gritar bem alto para todo mundo ouvir o quanto o TOC a atrapalha.
Quem quiser ter sua estória publicada num post pode me enviar um email relatando suas experiencias que eu coloco num post exclusivo. Muitas vezes quando o TOC me enche eu venho aqui postar alguma coisa então espero que postando a estória de alguém eu também possa ajudar essa pessoa e outras a suportarem aqueles dias em que o TOC acorda com vc, toma café da manhã com vc, vai para o trabalho com vc, lava 200 vezes a mão com vc, etc :)

24 novembro 2010

Curta metragem sobre o TOC

Uma vez escrevi um post intitulado Tragicomédia onde dizia que se eu fizesse um filme sobre a minha vida ele poderia ser classificado como uma tragicomédia. Não é que navegando no youtube encontrei dois curta metragem sobre TOC! O primeiro curta foi um trabalho de TCC do curso de fotografia de um rapaz que também tem TOC. Gostei muito desse vídeo pois a atriz interpretou bem uma pessoa que tem TOC e o roteiro também é bom. Apesar de retratar apenas a ponta do iceberg do drama vivido por tem quem TOC esse retrato é bem fiel. Nem num longa metragem conseguiriamos colocar todo o drama e dificuldades vividos por quem tem TOC, imagina em um curta metragem?
Vale a pena assistir para tentar entender uma minúscula parte do universo de quem tem TOC. Eles estão com os nomes de: Trabalho de TCC parte 1 e Trabalho de TCC parte 2
O segundo curta metragem tenta falar sobre o TOC e a cura através da TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental) mas é muita informação para um curta de apenas 20 minutos e acabou nao saindo tão bom quanto o primeiro curta acima. Tentou-se colocar muita informação em pouco tempo. A parte 1 desse curta ficou muito boa, retrata de forma fiel o constrangimento sofrido por quem tem TOC. As partes 2 e 3 não sairam tão boa quanto a 1a mas vale a pena assistir as 3 partes: Curta sobre TOC parte1;  Curta sobre TOC parte 2 e Curta sobre TOC parte 3